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As pessoas são melhores se descobrirmos o que nelas há de melhor. A sociedade torne-se melhor se as pessoas forem niveladas por cima.

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As pessoas são melhores se descobrirmos o que nelas há de melhor. A sociedade torne-se melhor se as pessoas forem niveladas por cima.

Valores beirões

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Sentado na esplanada do Café Argus, observo o cauteleiro. Trata-se de um cavalheiro e não de um homenzinho nem de um pedinte, pela maneira como veste, calça, fala, enfim, como se apresenta. Não anda com as cautelas na mão, mas dentro de uma capa, onde há outros papéis, como se fosse um universitário. Ele até podia ter as cautelas dentro da capa por estar a fazer algum negócio ilegal, mas não é dele que estou a falar, ele é o paradigma que escolhi para as gentes daquele lugar.

Quando ando pelas ruas de Arganil e vejo os filhos da terra, tenho a sensação de viver na sociedade (lisboeta) dos finais do século XIX, início do século XX. Tem um pouco a ver com o aspecto das pessoas, mas eu acredito que o aspecto revela algo do coração. O corte da barba e do cabelo dos homens, o vestir das senhoras… evocam, no meu espírito, gente que acredita em valores. Podem ser valores diferentes dos meus, e são-no muitas vezes, eu sei, mas são valores. É bom ter valores, melhor se forem justos, claro.

Não vejo pessoas a vestirem à antiga nem me parecem pessoas com ideias antigas ou retrógradas.

O que vejo em Arganil, via em Góis há poucas décadas, mas já não vejo. O que não é necessariamente bom nem mau. É uma época, que está viva em Arganil – por quanto tempo? – e que já terminou em Góis.

Hoje as pessoas são mais despreocupadas – há dias, numa oficina automóvel, usaram esta palavra para se referirem à irresponsabilidade de um mecânico. Talvez a despreocupação tenha alguma relação com a irresponsabilidade. Ainda não pensei bem no assunto. Talvez não haja qualquer ligação.

Agora vejo claro. São homens e mulheres de honra, dos que são referidos na literatura de há cem anos, talvez um pouco mais, que me evocam as pessoas que vejo percorrerem aquelas ruas. Os que se reuniam em tertúlias nos cafés, escritores, poetas e pintores e outros que tais e alguns nada disso.

Agrada-me vê-los no café, vestidos e a falarem como no Chiado ou no Rossio de Lisboa no final da monarquia. E até à década de 1960 ou 70, até os bancos tomarem conta desses cafés, como o Diário Popular ecoou então. Não concordo nem discordo com os pensamentos deles, mas são uma bela imagem. Acredito que são valores de há 100 anos. Ou de sempre. Ou de nunca. Numa sociedade tão carente de valores e de quem dê testemunho de valores.

 

Orlando de Carvalho

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