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nivelar-por-cima

As pessoas são melhores se descobrirmos o que nelas há de melhor. A sociedade torne-se melhor se as pessoas forem niveladas por cima.

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As pessoas são melhores se descobrirmos o que nelas há de melhor. A sociedade torne-se melhor se as pessoas forem niveladas por cima.

Bebés hooligans

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É engraçado como tantas pessoas que se declaram democratas são capazes de inscrever bebés recém-nascidos em clubes de futebol. É engraçado, mas não tem graça alguma, porque demonstra bem quanto enganadas as pessoas andam neste mundo, vivendo asfixiadas em dependências estúpidas que apenas põem em questão a racionalidade dos seres humanos.

Não critico as pessoas que assim procedem, mas levanto a questão para que essas pessoas e todas as outras façam uma reflexão sobre si, sobre a nossa sociedade e sobre o futuro, porque, sendo lugar comum é facto, o futuro são as crianças.

Em casa dos meus pais tive plena liberdade de escolha do clube que queria adoptar, o mesmo acontecendo com os meus irmãos. E fizemos escolhas diversas. Fui assim educado.

É lamentável que se fale tanto de educação, dos deveres do Estado na educação, mas os pais, em casa, tantas vezes deseduquem os filhos, bloqueando-os a um clube de futebol.

Lembro uma história com mais de cinquenta anos. Não sei se hoje seria possível, mas não encontro nenhuma objecção a que se repita nestes dias do século XXI em que o futebol em especial e o desporto em geral são razão de ódios, de agressões, de mortes.

Numa mesma casa moravam várias pessoas da mesma família. Uma era criança de cinco anos. O pai era do Benfica e quando ao fim do dia entrava a criança gritava:

- Viva o Benfica!

O tio que também lá residia era do Sporting e quando entrava a criança gritava:

- Viva o Sporting!

Um dia a criança enganou-se e trocou o clube. O estaladão que levou na cara foi tão grande que bateu com a cabeça no móvel do outro lado da sala, partindo a cabeça.

Como é possível matar alguém por ser de outra cor? Como é possível viajar milhares de quilómetros para ir ver o seu clube jogar e, em vez de desfrutar, se opta pela bebedeira farta e pela luta à maneira dos bárbaros romanos.

Recordo a questão dos azuis e verdes no declínio do Império Romano.

No ano 532, quando Justiniano reinava em Constantinopla, as corridas de cavalos e quadrigas motivavam tanto o povo como os clubes de futebol ou os partidos políticos na actualidade, organizando-se claques de fanfarrões idênticas às que existem hoje.

Inicialmente as claques identificavam-se por cores diversas, que se reduziram aos brancos, vermelhos, verdes e azuis, e finalmente a verdes e azuis, que supostamente agregariam respectivamente o povo e os nobres. Para além das corridas, as claques estavam divididas por questões políticas, teológicas, filosóficas, tudo servia para lutarem entre si.

Verdes e azuis odiavam-se, não sabiam porquê, como hoje adeptos de clubes de futebol diferentes se odeiam apenas por ignorância e estupidez.

Há quem não consiga entender como há casas de família onde convivem pessoas adeptas de clubes diferentes.

Quem se regozija são os presidentes desses clubes, os jogadores de futebol profissional, os agentes desportivos, os árbitros, a comunicação social ligada ao tema, enfim, um mundo de gente a ganhar dinheiro à custa dos lorpas que se deixam defraudar, gastam o seu dinheiro e usam o tempo que podiam ter de felicidade para dar e levar porrada.

Voltando aos verdes e azuis, em Constantinopla, sabe-se como acabaram, e foi muito mau. Conseguiram lutar durante cinco dias barricados dentro do estádio, já com intenção de despedir o imperador e assumir o poder.

Esta foi uma causa, não decisiva, mas contribuinte para a queda do Império Romano do Oriente. Diz-se que as tropas leais ao Imperador venceram verdes e azuis e terão morrido uns 30 mil membros de claques. Muitos como em Heysel Park, esmagados pela turba em debandada.

Há quem levante a questão de pais cristãos baptizarem os seus filhos ainda crianças. Que comparação pode haver entre uma questão de fé, de coração ou razão e o clubismo colorido de claques de bêbedos, rufias, zaragateiros ordinários, arruaceiros que são capazes de inscrever os filhos em clubes, acabando por os tornar em seus sucessores nas tais claques que apenas servem, em termos reais, para fazer mal à sociedade?

A fotografia é de um babete com as cores de um clube. Foi o babete que despertou este artigo, mas o leitor pode ler lá o nome do seu clube ou de outro qualquer que use arruaceiros para justificar o mau perder com adversários que jogam melhor. Aos vencedores? Em vez de lhes dar os parabéns, mandam os tais dar-lhes porrada. Lamentável!

 

Orlando de Carvalho