Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

As respostas nem sempre são óbvias

O golpe militar de 25 de Abril de 1974 foi uma festa para a generalidade dos portugueses, em especial os lisboetas. Também de modo especial para aqueles que nada tinham a temer por lhes pesar na consciência algum crime político ou social, para os que acreditavam nada dever ao regime; para aqueles que atribuíam valor ao conceito de liberdade, para os que repudiavam a guerra do Ultramar, nomeadamente rapazes que corriam o risco de ser mobilizados e quem temia por esses rapazes. Pese embora que durante essa festa ainda o povo não soubesse do que se tratava, se de um movimento para liberalizar o regime político ou se não passava de movimentações dos generais, capitalistas e colonialistas que se sentiam ameaçados pela política marcelista e seu aproveitamento pela ala liberal da Assembleia Nacional e pelo general Spínola, entre outros.

O povo na rua fazia lembrar os grandes movimentos revolucionários e anarquistas, tão expressivos em pinturas, filmes e mesmo fotografias de época: jovens, adultos, crianças e velhos, passeavam pela rua, sem medo – porque sem consciência – peito aberto, ao vento e aos tiros perdidos, a saltar em volta ou para cima dos carros de combate que desfilavam como corso cedido pelo Museu Militar, um monte de velharias.

Passada menos de uma semana, o povo, que nada entendia de política – as excepções sempre confirmaram as regras – começou a aprender. Aprendia o que era explicado e ensinado na televisão e na rádio, também nos jornais, e pelo que via e ouvia com os seus próprios olhos e ouvidos.

O Partido Comunista Português, afinal não era o diabo: nem os comunistas comiam criancinhas, nem tinham corrido ribeiras de sangue nas ruas de Moscovo quando foi substituída a monarquia czarista pela ditadura operária. Afinal existiam três partidos comunistas, em Espanha, França e Itália, que eram mesmo mais democráticos e respeitadores da liberdade e das pessoas que os próprios partidos socialistas desses países. Os comunistas não desejavam a violência, mas a paz. A comunicação social totalmente controlada pelos comunistas era catedrática nestes ensinamentos.

Testemunhámos, ao longo dos meses que se seguiram, que os comunistas tinham muita força quando sentiam o apoio directo do partido devidamente organizado e estavam reunidos, muitos ao lado uns dos outros, para manifestações, greves, etc. Mas quando não sentiam esse apoio, no meio do qual o indivíduo só tinha que ir na onda sem precisar de assumir… Recordamos greves em que os comunistas foram trabalhar ou apresentaram atestados médicos, deixando os colegas que tinham assumido fazer greve, incitada por eles, em maus lençóis. Mas o partido comunista foi crescendo, pelo menos aparentemente, até às eleições, onde se verificou que eram mesmo muito poucos, barulhentos, mas poucos. Afinal sempre tinham tido em mente a subjugação nacional ao ideário soviético, entretanto hoje já falecido – nem um século durou! – com algum esforço dos coveiros Reagan e Wojtyla.

Os portugueses perceberam a tempo de não embarcar numa aventura perigosa, mas a história podia ter sido bem diferente e bem mais dolorosa.

Também a governação grega e a situação social nesse país atingiu um estado caótico. Tsípras e o Syrisa surgem como messias. Sê-lo-ão? As medidas de actuação mais radicais já foram amenizadas e esta frente política e partidária parece ser afinal mais democrática do que as acusações que lhe faziam os opositores faziam crer. Será esta frente de esquerda capaz de levar bem-estar aos gregos? Angela Merkel não quer pensar nisso: afinal os gregos suportaram parte da dívida alemã no final da II Guerra Mundial, durante a qual os alemães provocaram dor e morte na Europa e por todo o mundo e têm mesmo continuado a alimentar uma parte da economia alemã, pelos juros cobrados pelos bancos alemães, pelos roubos perpetrados através de negociatas de submarinos, mas não só. Também Pedro Passos Coelho ocupa a primeira linha de oposição ao novo regime grego, de braço dado com a colega alemã. Por razão diferente: como ficaria a imagem do primeiro ministro de Portugal se a Grécia vencesse a crise social e económica, a dívida, sem forçar os cidadãos a pagarem o que tem sido roubado pelos políticos e banqueiros? Se os corruptos fossem presos e o dinheiro devolvido aos seus legítimos donos?

Como chegaram Tsípras e o Syrisa ao governo da Grécia? Com o apoio da maioria dos gregos? Aqui também podemos fazer algumas comparações.

Também Hitler chegou ao poder na Alemanha através de eleições. Em 1930 conseguiu 18% dos votos; forçou eleições presidenciais em Abril de 1932 e ficou em segundo lugar com 35% dos votos; em eleições forçadas em Julho, os nazis obtiveram o primeiro lugar com 35% dos votos; em novas eleições em Novembro, Hitler perdeu votos mas manteve o primeiro lugar, uma maioria débil que Hitler tornou forte, tornando-se chanceler em Janeiro de 1933 e acumulando com presidente, por usurpação, em Agosto de 1934, quando morreu o legítimo detentor do cargo, passando a intitular-se Führer (Chefe). Desta trapalhada resultaram morte e desgraça para todo o mundo (talvez nem todo, pois muitos fabricantes de armamento, não só americanos, enriqueceram, e nem só de material bélico se faz uma guerra, também de comidas enlatadas e tantas outras coisas, de botas a aspirinas).

Embora não nos pareça que se tivesse justificado qualquer caridade com os alemães no final da I Guerra Mundial, na verdade eles mataram milhões de pessoas e fizeram-se matar, acontece que se tivesse havido alguma complacência dos vencedores – que eram também os mártires da loucura alemã – talvez não tivesse havido II Guerra Mundial.

Também Salvador Allende venceu eleições no Chile em 1970 com os mesmos 35% de votos, sem maioria absoluta e constituiu governo. As visitas às capitais europeias foram infrutíferas e sem a ajuda destas e a inflação em quase 400%, Allende entrega-se nas mãos soviéticas e maoístas. No dia 11 de Setembro de 1973, Allende suicida-se enquanto está preso no palácio presidencial La Moneda num cerco realizado sob o comando do sanguinário Augusto Pinochet e já sem hipótese de salvação. Em Lisboa o Diário de Notícias comenta que está provada a impossibilidade de o socialismo ser governo pela via democrática das eleições. Que alívio esta notícia! E não só para Lisboa.

A recusa de auxílio, seja qual for, ao governo grego, por parte da Europa poderá ter consequências equiparáveis às recusas ao auxílio aos alemães ou aos chilenos? Tsípras estará apenas a tentar enganar todos como fez Cunhal? O golpe militar de 25 de Abril de 1974 teve consequências na política mundial. De que modo as eleições na Grécia em 25 de Janeiro de 2015 poderão influenciar a Europa e o mundo?

 

publicado por nivelar-por-cima às 12:45

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