Domingo, 12 de Julho de 2015

Góis 2015

A nossa aldeia

 A nossa aldeia

Mais uma vez tive a oportunidade de passar uns dias na casa da serra, em Góis, e deixo convosco algumas reflexões que fiz.

Várias placas indicativas de direcções ajudam quem chega a encontrar a Igreja Evangélica. Todavia, e não obstante a população portuguesa e, muito provavelmente, os viajantes de fora que chegam a Góis serem maioritariamente católicos, não descobri indicações acerca da localização da igreja paroquial.

Temos, acerca da igreja paroquial da comunidade católica, a considerar duas questões. A questão turística e histórica-cultural e a questão espiritual. Da primeira, parece-me que deveria tratar a câmara municipal, uma vez que deve zelar pelo melhor interesse da população e do concelho. Da segunda, ainda a câmara municipal, englobado no seu dever de acolher quem visita a vila e lhe proporcionar as melhores informações e o pároco, o reverendo padre Carlos, no sentido de que seja publicitado o horário das celebrações litúrgicas, bem como o horário em que as pessoas que chegam podem usar a igreja para as suas orações particulares.

 

Um aspecto distinto é o das praias de Góis e de Vila Nova do Ceira. Eu sei que poucas pessoas conhecem esta maravilha e por essa razão não vêm até aqui desfrutar do Ceira. É bom, em determinado sentido, para os que as usamos, porque a concorrência à ocupação de espaço é menor e ficamos mais à vontade, mas talvez fosse preferível que mais forasteiros chegassem. Beneficiaria a economia local e, todos especialmente os que aqui residem todo o ano, uma vez que sendo rentáveis, os estabelecimentos comerciais não fechariam e prestariam serviço todo o ano, disponibilizando os seus produtos e serviços e mantendo emprego. Acerca da economia local já reflectirei, mas ainda quero referir dois aspectos relativos às praias. Parece-me saudável quando as crianças lançam seixos que saltitam à superfície da água. Como são agradáveis as recordações que tenho do meu avô a ensinar-me a lançar os seixos! Porém, quando essas crianças começam a atirar pedregulhos para o meio dos banhistas, acho que os nadadores-salvadores deviam intervir e parar a brincadeira perigosa, e não ficar a ver; penso eu que a sua função não é só salvar quem se estiver a afogar, mas uma supervisão geral do espaço balnear. Se eu estiver enganado, então alguém devia estar destacado para essas funções, uma vez que há pais que não se incomodam com os prejuízos que os filhos podem causar. Por outro lado, foi lamentável todas as vezes que entrei nas casas de banho da Praia da Peneda, à entrada do Cerejal, encontrá-las, de manhã limpas e a meio do dia conspurcadas (não apenas sujas, mas de fazer os utentes reclamarem ruidosamente zangados). Utilizadores descuidados? Falta de manutenção? Deixo apenas o apontamento do que encontrei, sem acusações.

 

A economia de Góis acompanha, em certa medida, a marcha do que se passa a nível do país. Tudo vai fechando. Uns morrem e não há quem lhes suceda. Outros cessam a actividade por deixar de ser rentável. Lá por que acontece o mesmo pelo país fora, não podemos partir do princípio que o mesmo deva ou possa acontecer em Góis. O concelho, por este caminho, extingue-se, dentro de alguns anos, e a culpa não será dos que viverem e governarem nessa altura, mas dos que vivem e governam agora. Aliás, basta passar as páginas deste jornal, a cada quinzena, para nos apercebermos da profundidade deste problema. Sejam notícias ou publicidade, que material encontramos no Varzeense que nos fale do desenvolvimento económico de Góis? A abertura de um supermercado de uma cadeia nacional? Se a nível nacional as cadeias de supermercados criam emprego instável, porque haverá de ser diferente em Góis? Festas, feiras, actividades promovidas pela edilidade e associativismo? O que em Góis produzia mais valia e alimentava famílias que viviam do trabalho por conta de outrem, extingue-se, mas parece que ninguém se dá conta ou se importa. Bem, há os eucaliptos, que se enquadram a nível nacional nas medidas que levaram ao arranque de oliveiras, baixa de barcos de pesca, utilização de fundos europeus, destinados a empreendedorismo, em sedes de associações, de partidos, em compra de casas, carros, barcos para uso privado por parte dos que deviam ser os tais empreendedores.

 

A feira semanal de Góis saiu do Pombal. E o espaço foi reorganizado. O resultado é esteticamente agradável, económica, turística e socialmente desastroso. A feira foi mudando de sítio, hoje nem se dá por ela. Os clientes têm novos espaços comerciais em que se servem, pagam e voltam para casa, sejam lojas de cadeia ou orientais. Gastam menos, compram menos e têm sempre as hipóteses de Lousã, Arganil, Poiares ou Coimbra para compras mais especializadas ou artigos de maior custo e mais lucrativas para quem vende. O convívio, a simples saudação no encontro com aquela pessoa que também foi à feira… acabou. Acontece que Góis não é uma grande metrópole impessoal, mas uma pequena vila onde todos se conhecem, ou era suposto conhecerem-se. A função social de fórum da feira de Góis morreu e não ficou substituto. As lojas vão morrendo aos poucos. Quem ia à feira comprar roupa ou sapatos, ia à feira e passava pelas montras da vila, entrava nos estabelecimentos, comprava um prego ou uma lâmpada, e, além da camisa que procurava na feira, comprava também uns chinelos num estabelecimento comercial, outro que procurava uns sapatos na feira, acabava a comprar também jornais e revistas. E todos tomavam no centro da vila, agora deserto, o café, o copinho, ou o pequeno-almoço. (Não vi nenhum táxi na praça; será que também foram extintos?) Há coisas que não se podem apagar da História, o 25 de Abril, os golos de Cristiano Ronaldo e a projecção de Portugal no mundo por causa desses golos, as florestas devastadas pelos fogos, a economia que morre por causa de uma decisão política descuidada. Dizia, neste dia em que escrevo estas linhas, uma feirante para o feirante do lado, na actual feira de Góis:

- Ó colega, devemos ter-nos enganado no dia da feira, deve ser só amanhã. Hoje, clientes, nem vê-los.

Isto Passou-se em Julho, não no Inverno.

 

Góis não está condenado à desgraça. Se os goienses tiveram êxito ao emigrarem, qual a razão por não o terem também na sua terra? Não foi um dos objectivos da Revolução de Abril, a criação de um desenvolvimento que contrariasse os malefícios da interioridade?

Espero ter estimulado os leitores a reflectirem também em Góis. Quem, depois de ler este texto, acreditar que isto tem algum enquadramento político-partidário, da minha parte, não entendeu o que escrevi, o que não implica que cada um não possa fazer a leitura que entender.

 

Orlando de Carvalho, Julho de 2015

 

publicado por nivelar-por-cima às 09:45

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