Terça-feira, 24 de Março de 2015

Dieu li volt!

Os ataques que extremistas muçulmanos têm lançado contra cristãos, fiéis de outras religiões e a cultura e a História, não podem deixar de suscitar o paralelismo com a situação que se desenrolou a partir do final do século XI com os ataques turcos aos chamados lugares santos. Então, a resposta foram as Cruzadas, com enormes atrocidades cometidas por todos os intervenientes e milhares de mortos ao longo de quase 200 anos. Também hoje parece imprevisível o desfecho de mais uma guerra religiosa que já começou.

 

Em 27 de Novembro de 1095 reuniu em Clermont, França, o Concílio convocado pelo papa Urbano II, para tratar dos ataques que os muçulmanos turcos estavam a fazer contra os cristãos, a oriente. É a resposta do papa ao pedido de auxílio que o imperador bizantino Aleixo I Comneno lhe enviara.

São tantos e tão entusiastas os que respondem à convocatória do papa, que o Concílio tem de reunir ao ar livre.

Eis o famoso discurso de Urbano II, que lançou as Cruzadas, uma resposta à investida muçulmana contra os cristãos, os lugares santos e a Europa.

 

Valente Povo dos Francos, raça escolhida por Deus! Vós sobressaís entre todos os povos pela fidelidade a Deus e à Santa Igreja! A vós se dirige agora a minha exortação, com a suprema autoridade.

Convocámos este Concílio em Clermont, para vos dar conta dos gritos desesperados dos cristãos, nossos irmãos que estão a ser dizimados pelos infiéis.


Dos confins da cristandade, de Jerusalém e de Constantinopla, chegou até nós, uma grave notícia: a raça maldita dos turcos, povo pagão e descrente, está a invadir as terras dos cristãos, pilhando e lançando fogo a tudo e pondo os fiéis em fuga das suas casas e das suas terras, pela força das armas.


Parte destes cristãos foram deportados como escravos, os restantes foram cruelmente torturados e mortos. As igrejas foram assaltadas, os altares profanados, e dentro delas estão a realizar o culto da religião deles. Os varões cristãos são forçados à circuncisão e o sangue da circuncisão é derramado nos altares e nas pias baptismais. Perfuram-lhes os umbigos, exibem suspensos os genitais que arrancam aos cristãos, que chicoteiam e gozam vendo-os morrer esvaindo-se em sangue nas ruas, ao lado das suas vísceras derramadas. Usam os cristãos como alvo para lançarem flechas. Divertem-se a decapitar os seguidores de Cristo com um só golpe depois de os obrigarem a ajoelhar e dobrar a cabeça. Com as mulheres, a violência e a humilhação é ainda maior.


Deixou de ser possível viajar no reino dos gregos sem sofrer os ataques desta gente descrente.

A quem cabe, pois, o dever de vingar estes cristãos e reconquistar as terras invadidas, senão a vós, Francos, que entre todos vos distinguis pela glória das armas e grandeza de alma e humilhais todos os que vos resistem?

Que a valentia de vossos antepassados vos encoraje e exalta as vossas almas, tornando-vos dignos do vosso antepassado, o rei Carlos Magno e seus filhos, que expulsaram os pagãos e restabelecerem a fé cristã, vos incitem a pegar nas armas contra os inimigos da fé.

Ao pensardes no que vos prende às vossas mulheres e filhos e na morte que sempre espreita em todas as batalhas, elevai os vossos olhos ao céu e pensai no Santo Sepulcro conspurcado e profanado pela imundice daquela gente. Que nem o pensamento nas propriedades ou bens materiais ou qualquer outra preocupação vos prendam.


Esta terra que habitais mal chega para vos alimentar e passais o tempo em guerras, uns contra os outros, nas quais manifestais ódio e vos assassinais mutuamente.

Afastai de vós o ódio e as guerras que vos dividem e empreendei o caminho do Santo Sepulcro.

Arrancai aquelas terras àquela raça malvada e submetei-a. Jerusalém é a mais deliciosa das terras, o centro do mundo, que foi dada por Deus aos filhos de Israel, pois nela corre o leite e o mel. Esta Jerusalém eleva agora a sua voz para vós e vos implora socorro.

Empreendei esta viagem também pela remissão dos vossos pecados, certos de que assim alcançareis a glória dos Céus.

Ficai cientes de que aqui estais hoje porque Deus a isso inspirou os vossos corações.

Ao enfrentardes o inimigo gritai bem alto: “Deus o quer”, pois não agis por vosso recreação, mas por mandato divino.

Convocamos os homens saudáveis e não as mulheres, velhos ou crianças, que só seriam um impedimento ao avanço da guerra. Os ricos sustentem os pobres nesta deslocação e sustentem os familiares que ficarem.

Que ninguém parta sem autorização da respectiva autoridade eclesiástica. Não partis em recreio, mas em peregrinação e missão sagrada. Por isso, os homens ostentarão cozida no peito a Cruz de Cristo, que os identificará. Grande será a vossa glória no Reino dos Céus.

Clermont, 27 de Novembro de 1095.

 

E todos os padres conciliares e o povo clamaram: Dieu li volt! – Deus o quer!

 

Em 15 de Agosto de 1096 partiam os primeiros cruzados.

 

 Orlando de Carvalho

publicado por nivelar-por-cima às 19:09

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