Terça-feira, 24 de Setembro de 2013

No hospital

Sala de espera nas urgências hospitalares.

Olho e ouço, vejo e escuto, observo e tento compreender as dores e os dramas.

 

Um casal de cinquenta anos. Falam ruidosamente; presto atenção. Ela, na entrada da sala, pede-lhe ajuda para caminhar, está agarrada a uma cadeira.

Ele argumenta. Ajuda?

Ela encosta-se e depois senta-se a pedir ajuda; quase grita para o marido.

Ele ainda argumenta em voz alta, condescende e vai ajudá-la, explicando, conformado:

- Se precisas de ajuda...

Finalmente, sentados lado a lado, ficam em aparente normalidade a conversar mais umas horas de espera, quase a sussurrar. Será verdadeira cumplicidade? Teria sido a brutalidade dele ao não a socorrer que motivou a cena inicial ou a impaciência dela, com dores, a exigir dele mais que o exigível?

Olho-os ainda: continuam a sussurrar e riem, agora sim, em cumplicidade.

 

Mais de metade das pessoas na sala estão agarradas a telefones. Com papel na mão somos só dois. Eu a escrever e uma senhora a ler uma revista.

 

À entrada, num recanto do corredor, onde estacionavam macas e cadeiras de rodas, uma senhora tinha estado a elevar a voz, exasperada.

- Não tenho carro, não tenho telefone para chamar alguém, não trouxe dinheiro e querem mandar-me embora? Eu não tenho como sair daqui. Não posso ir a pé para casa!

Olho e presto atenção.

Está sentada numa cadeira de rodas. Já não é nada nova. Está com aspecto enfraquecido; veste apenas uma espécie de robe mal abotoado.

Um enfermeiro que termina o atendimento de um outro doente dirige-se à senhora e pergunta-lhe o que se passa. Pelo jeito da fala, fico convencido que ele tratou da melhor maneira o assunto daquela mulher.

Eu imagino que ela se tenha sentido mal e tenha chamado uma ambulância, vindo para o hospital tal e qual estava.

Mas, que sei eu?


E os telefones? As pessoas falam, teclam, estarão atarefados com troca de mensagens ou a navegar na Internet?

 

Tranquilamente, os médicos vão chamando os doentes desde a porta dos seus gabinetes. É fácil identificá-los pela voz. Um é brasileiro, outro tem sotaque de Espanha, outro do leste europeu, outro que eu não vejo, tem fala da África lusófona, a pele é escura, quase de certeza.

Isto até podia ser engraçado se, na génese desta babilónia médica, não estivesse o espírito que desde há muitas décadas impediu a formação de médicos em quantidade suficiente, particularmente em certas especialidades obsessivamente elitistas e gananciosas, onde os lucros baixariam se existissem médicos suficientes e a tabela de preços tivesse de baixar. E se a esta situação não sucedesse a visão curta de sucessivas governações que por supostas razões economicistas privilegiam a importação de médicos à formação de médicos.

É certo que o Sporting tem formado alguns dos melhores jogadores de futebol a nível mundial e isso de pouco lhe tem servido. Mas a culpa continua a ser da má gestão (ou da gestão danosa).

 

Em torno do edifício, e esta foi a primeira situação que se me deparou à chegada às urgências, estão espalhadas duas ou três dezenas de ciganos. A dado momento, duas ciganas entram, falam com alguém, e começam a discutir em voz alta, mais para elas próprias que para a interlocutora ou para a assistência.

-Então a gente vem aqui e tem de esperar? Melhor é ir embora.

E lá foram. Elas e os outros que aguardavam lá fora.

 

Uma senhora e a filha estão sentadas, ao lado uma da outra. Acabaram de chegar. A filha é uma moça que aparenta uns vinte e cinco anos. Lê qualquer coisa. A mãe fala ao telefone, melhor dito, grita ao telefone. Todos os presentes são forçados a participar da conversa.

- Sim... estou nas urgências do hospital com a tua irmã

- (silêncio)

- Ora, é o habitual, está com uma infecção urinária.

- (silêncio). A filha sorri, enquanto continua a garatujar uma revista de passatempos.

A conversa telefónica termina. A mãe desabafa, no mesmo tom com que vinha falando, obrigando-nos todos a participar das suas conversas e dos seus pensamentos.

- Este rapaz só sabe falar aos gritos. Não sei a quem é que ele sai! 

 

Duas avós conversam acerca dos seus netos. Trata-se de crianças de três ou quatro anos. Das suas gracinhas. Uma das avós conta, toda babada:

- Outro dia pegou nas chaves e levou-as. Quando lhe mandei que as devolvesse - e a avó exemplifica, levantando os braços e abanando-os de um lado para o outro -, ele fez assim enquanto cantava: nhã, nhã-nhã-nhã-nhã...

Fiquei deveras embevecido. Quão pobre seria aquela avó para se alimentar de más educações do neto ainda tão pequeno.

 

Junto a mim estava uma família peculiar. Inicialmente eram o pai, com cinquenta anos, e o filho com uns dezoito. Conversavam, mas a conversa não fazia sentido. O diálogo não tinha um fio condutor. Em especial o rapaz falava muito alto. O pai podia ter sido escolhido para protagonizar o Corcunda de Notre Dame. Mas havia qualquer coisa de mais estranho na conversa. Não eram as palavras, mas o seu som, o modo como era ditas, a ênfase, o sentimento, o sorriso luminoso no rosto dos dois. Não demorou a perceber que o rapaz era deficiente mental, mas sobre o pai continuava a pairar a dúvida.

O pai falou várias vezes ao telefone. A esposa estava com outro filho nas urgências pediátricas, neste mesmo hospital.

A esposa despachou-se mais depressa e veio com o filho, com uns treze ou catorze anos, juntar-se ao marido e ao filho mais velho.

Era uma mulher uns dez anos mais nova que o marido, com um ar muito cansado.

O filho mais novo sentou-se ao lado do pai que o abraçou e lhe foi fazendo festas nos braços.

- Como estás?

- A diarreia já parou.

Qualquer dos filhos era bastante alto e forte, parecendo, noutro contexto, serem mais velhos.

O pai continuou:

- Encosta-te a mim. Descansa.

Enquanto a mãe foi com o filho mais velho à consulta, o pai foi falando com o filho mais novo:

- Gostas da tua mãe? Eu também gosto muito dela. Ela faz o que pode, é muito doente, como sabes. É muito bonita a tua mãe.

Temos uma família com um pai corcunda em alto grau e dificuldade em se mover, a mãe muito doente, dois filhos deficientes mentais, uma família onde todos se falavam carinhosamente, sorriam, cheios de paciência. Parece que já estavam há muitas horas sem comer por terem ido anteriormente a outro hospital que os terá rejeitado por motivos de área de residência. Mas nem a fome afectava aquela relação de amor, quase impossível de entender para muitos de nós ditos sãos.

Que Deus os abençoe e ajude na medida do possível.

 

E eu? A médica que me atendeu prescreveu-me um medicamento. A receita fazia alusão a uma alínea c) do nº3 do artº 6º. Penso que era assim. E a uma reacção prévia adversa. Interroguei a médica sobre aquilo.

- Não tem que ver consigo. É uma coisa do Ministério.

Antes de aviar a receita, na farmácia, exigi saber o que era aquilo.

- A médica indica que teve anteriormente uma reacção adversa e, por isso, não podemos vender-lhe este medicamento de outro laboratório.

Espanto!

A médica tinha-me interrogado acerca de alguma reacção adversa anterior àquele medicamento. E não havia nenhuma, porque eu nunca o tinha tomado.

A médica estaria louca? Estaria pressionada pelo sistema de saúde? O hospital teria os computadores bloqueados com algum programa para economizar no receituário?

 

Foi uma simples ida ao hospital.

 

publicado por nivelar-por-cima às 13:15

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