Domingo, 22 de Fevereiro de 2015

Pais e mães desleixados

floresta com chucha.jpg

 

A paternidade e a maternidade são dons para serem vividos em ambiente familiar. Ser pai ou mãe é um ministério, um serviço prestado, neste caso aos filhos. Este serviço sofre com frequência duas patologias graves. Pais e mães que confundem serviço com escravidão e prestam um mau serviço aos filhos porque em vez de os servirem, educando-os e ajudando-os a crescer em todos os aspectos, se tornam voluntariamente escravos dos filhos, tornando-os ditadores mesquinhos e caprichosos, a quem os pais e mães satisfazem todos os desejos, por piores que sejam. Outra situação grave que ocorre é o desleixo do ministério, ignorando-o. Estão neste caso situações de pais descuidados, ocasionalmente ou recorrentemente, que depois se queixam do azar, da ineficiência das forças policiais e, quantas vezes, acabam a ganhar dinheiro com as desgraças que ocorrem, incluindo à custa de agentes policiais que procedem às investigações. Quem sofre são mesmo as crianças.

Um grupo de escuteiros da zona de Sacavém esteve recentemente de visita a uma paróquia também na área da Grande Lisboa. Despediram-se cerca das oito horas da noite, tinha já escurecido há mais de uma hora. A despedida ocorreu num lugar ermo, no adro da igreja visitada. A mãe da Mariana veio buscar a filha e trouxe a filha mais pequena, que estava a dormir quando chegaram e quis ficar no carro. A mãe acedeu e saiu para ir buscar a filha escuteira, deixando no carro o bebé, com menos de dois anos, mas também a sua mala de mão. Os escuteiros fizeram festa na hora de se despedirem e a mãe foi ficando, ficando, ficando...

Entretanto a bebé acordou, abriu a porta do carro, buzinou, mas não comoveu os ouvidos da mãe descuidada. Chegaram pessoas, eu, um amigo e uma família, que não conheço. A bebé acabou por não abandonar o carro para ir passear naquele ligar ermo e escuro, onde até cursos de água existem.

Tentámos encontrar os acompanhantes da bebé mas sem sucesso. Fotografei o carro, a matrícula e o bebé. E preparava-me para chamar a polícia quando surgiram a Mariana e a mãe. Ao ver pessoas junto ao seu carro, a senhora alegremente, como quem tenta dar a volta por cima, interrogou, sem evidenciar constrangimento:

- Acordou, foi? Está a chorar?

- Não. Abriu a porta, podia ter fugido e buzinou - respondemos.

- Não posso acreditar.

Sem agradecer, nem fazer mais comentários, antes murmurando ralhos ao bebé, a senhora colocou os cintos de segurança às filhas e foi embora.

Já uma vez encontrei um bebé a vaguear na noite. Chamei a polícia, a situação foi esclarecida e tudo acabou em bem, com os pais a reconhecerem a sua culpa. Este caso foi diferente. Deixo um conselho a quem passe pela mesma situação: não hesite em chamar de imediato a polícia. Os responsáveis passarão provavelmente uma provação difícil perante a polícia e a segurança social, mas o bem estar das crianças merecem-nos essa atitude. E andar mais tarde a escrever uma novela sobre as razões porque as crianças, bebés tantas vezes, são abandonadas ou se foi apenas um azar que aconteceu aos pais, só serve para alimentar a comunicação social e trazer padecimentos às crianças, quando não a morte.

As crianças não são objectos de decoração para os pais e as mães, não são um adorno como é o colar de pérolas ou o piercing. As crianças não são para alegrar uns momentos na vida dos adultos e mostrar aos amigos, as crianças não são para descarregar na creche, na escola, em casa de uns e de outros, nos escuteiros ou no carro abandonado, com as portas fechadas ou as portas abertas.

O problema não se resolve evitando ter crianças porque não se tem jeito para elas, mas aceitando o dom e o ministério.

 

Orlando de Carvalho

publicado por nivelar-por-cima às 20:58

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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

As respostas nem sempre são óbvias

O golpe militar de 25 de Abril de 1974 foi uma festa para a generalidade dos portugueses, em especial os lisboetas. Também de modo especial para aqueles que nada tinham a temer por lhes pesar na consciência algum crime político ou social, para os que acreditavam nada dever ao regime; para aqueles que atribuíam valor ao conceito de liberdade, para os que repudiavam a guerra do Ultramar, nomeadamente rapazes que corriam o risco de ser mobilizados e quem temia por esses rapazes. Pese embora que durante essa festa ainda o povo não soubesse do que se tratava, se de um movimento para liberalizar o regime político ou se não passava de movimentações dos generais, capitalistas e colonialistas que se sentiam ameaçados pela política marcelista e seu aproveitamento pela ala liberal da Assembleia Nacional e pelo general Spínola, entre outros.

O povo na rua fazia lembrar os grandes movimentos revolucionários e anarquistas, tão expressivos em pinturas, filmes e mesmo fotografias de época: jovens, adultos, crianças e velhos, passeavam pela rua, sem medo – porque sem consciência – peito aberto, ao vento e aos tiros perdidos, a saltar em volta ou para cima dos carros de combate que desfilavam como corso cedido pelo Museu Militar, um monte de velharias.

Passada menos de uma semana, o povo, que nada entendia de política – as excepções sempre confirmaram as regras – começou a aprender. Aprendia o que era explicado e ensinado na televisão e na rádio, também nos jornais, e pelo que via e ouvia com os seus próprios olhos e ouvidos.

O Partido Comunista Português, afinal não era o diabo: nem os comunistas comiam criancinhas, nem tinham corrido ribeiras de sangue nas ruas de Moscovo quando foi substituída a monarquia czarista pela ditadura operária. Afinal existiam três partidos comunistas, em Espanha, França e Itália, que eram mesmo mais democráticos e respeitadores da liberdade e das pessoas que os próprios partidos socialistas desses países. Os comunistas não desejavam a violência, mas a paz. A comunicação social totalmente controlada pelos comunistas era catedrática nestes ensinamentos.

Testemunhámos, ao longo dos meses que se seguiram, que os comunistas tinham muita força quando sentiam o apoio directo do partido devidamente organizado e estavam reunidos, muitos ao lado uns dos outros, para manifestações, greves, etc. Mas quando não sentiam esse apoio, no meio do qual o indivíduo só tinha que ir na onda sem precisar de assumir… Recordamos greves em que os comunistas foram trabalhar ou apresentaram atestados médicos, deixando os colegas que tinham assumido fazer greve, incitada por eles, em maus lençóis. Mas o partido comunista foi crescendo, pelo menos aparentemente, até às eleições, onde se verificou que eram mesmo muito poucos, barulhentos, mas poucos. Afinal sempre tinham tido em mente a subjugação nacional ao ideário soviético, entretanto hoje já falecido – nem um século durou! – com algum esforço dos coveiros Reagan e Wojtyla.

Os portugueses perceberam a tempo de não embarcar numa aventura perigosa, mas a história podia ter sido bem diferente e bem mais dolorosa.

Também a governação grega e a situação social nesse país atingiu um estado caótico. Tsípras e o Syrisa surgem como messias. Sê-lo-ão? As medidas de actuação mais radicais já foram amenizadas e esta frente política e partidária parece ser afinal mais democrática do que as acusações que lhe faziam os opositores faziam crer. Será esta frente de esquerda capaz de levar bem-estar aos gregos? Angela Merkel não quer pensar nisso: afinal os gregos suportaram parte da dívida alemã no final da II Guerra Mundial, durante a qual os alemães provocaram dor e morte na Europa e por todo o mundo e têm mesmo continuado a alimentar uma parte da economia alemã, pelos juros cobrados pelos bancos alemães, pelos roubos perpetrados através de negociatas de submarinos, mas não só. Também Pedro Passos Coelho ocupa a primeira linha de oposição ao novo regime grego, de braço dado com a colega alemã. Por razão diferente: como ficaria a imagem do primeiro ministro de Portugal se a Grécia vencesse a crise social e económica, a dívida, sem forçar os cidadãos a pagarem o que tem sido roubado pelos políticos e banqueiros? Se os corruptos fossem presos e o dinheiro devolvido aos seus legítimos donos?

Como chegaram Tsípras e o Syrisa ao governo da Grécia? Com o apoio da maioria dos gregos? Aqui também podemos fazer algumas comparações.

Também Hitler chegou ao poder na Alemanha através de eleições. Em 1930 conseguiu 18% dos votos; forçou eleições presidenciais em Abril de 1932 e ficou em segundo lugar com 35% dos votos; em eleições forçadas em Julho, os nazis obtiveram o primeiro lugar com 35% dos votos; em novas eleições em Novembro, Hitler perdeu votos mas manteve o primeiro lugar, uma maioria débil que Hitler tornou forte, tornando-se chanceler em Janeiro de 1933 e acumulando com presidente, por usurpação, em Agosto de 1934, quando morreu o legítimo detentor do cargo, passando a intitular-se Führer (Chefe). Desta trapalhada resultaram morte e desgraça para todo o mundo (talvez nem todo, pois muitos fabricantes de armamento, não só americanos, enriqueceram, e nem só de material bélico se faz uma guerra, também de comidas enlatadas e tantas outras coisas, de botas a aspirinas).

Embora não nos pareça que se tivesse justificado qualquer caridade com os alemães no final da I Guerra Mundial, na verdade eles mataram milhões de pessoas e fizeram-se matar, acontece que se tivesse havido alguma complacência dos vencedores – que eram também os mártires da loucura alemã – talvez não tivesse havido II Guerra Mundial.

Também Salvador Allende venceu eleições no Chile em 1970 com os mesmos 35% de votos, sem maioria absoluta e constituiu governo. As visitas às capitais europeias foram infrutíferas e sem a ajuda destas e a inflação em quase 400%, Allende entrega-se nas mãos soviéticas e maoístas. No dia 11 de Setembro de 1973, Allende suicida-se enquanto está preso no palácio presidencial La Moneda num cerco realizado sob o comando do sanguinário Augusto Pinochet e já sem hipótese de salvação. Em Lisboa o Diário de Notícias comenta que está provada a impossibilidade de o socialismo ser governo pela via democrática das eleições. Que alívio esta notícia! E não só para Lisboa.

A recusa de auxílio, seja qual for, ao governo grego, por parte da Europa poderá ter consequências equiparáveis às recusas ao auxílio aos alemães ou aos chilenos? Tsípras estará apenas a tentar enganar todos como fez Cunhal? O golpe militar de 25 de Abril de 1974 teve consequências na política mundial. De que modo as eleições na Grécia em 25 de Janeiro de 2015 poderão influenciar a Europa e o mundo?

 

publicado por nivelar-por-cima às 12:45

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